sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

O Último Voo


(...)

De repente, aconteceu o inesperado. Entrou pela sala um som violento de vidros a partirem-se. Estilhaços transparentes voaram por cima dos nossos cabelos ruivos, uma vassoura irrompeu estrondosamente para dentro do círculo e, em cima da vassoura, a feiticeira escritora quase sem vida. Tentámos reanimá-la de imediato com toda a nossa energia, mas as nossas tentativas foram em vão. A nossa irmã distraída estava quase sem pinta de sangue. No pescoço, as marcas conhecidas que nos turvaram o olhar. A teoria da feiticeira dos olhos cinzentos, acabara de cair por terra, mesmo antes de a pronunciar.

Apertámos o círculo à volta da irmã desfalecida. Tirei-lhe o manto que a envolvia. Estava despida. A sua pele branca reflectia uma aura de beleza. Os longos cabelos ondulados cobriam-lhe uma parte dos seios. Algo no corpo dela nos transmitia a mensagem que tinha sido amada, antes de ser cravejada com os dentes no belo pescoço. Líamos-lhe no rosto uma tranquilidade que habitualmente, só era possível deduzir dos seus poemas, quando ela os declamava em voz alta, nas noites de luar em que nos encontrávamos todas na floresta discreta, escondidas pelas árvores mágicas e iluminadas pelas palavras que brotavam da sua boca.

Aconcheguei-a e cobri-a de novo com o seu negro manto de morte e reparei nas suas mãos fechadas. Numa das mãos trazia as ervas que nos permitiriam voltar. Na outra mão, um dos seus poemas.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Cenário


O conteúdo do cálice adquiriu o tom da toalha. Ela pegou nele e dirigiu-se para a beira da lareira. Retirámos os mantos e formámos um círculo à volta do cálice, sentadas no chão. Os nossos olhos viam agora um espelho de sangue onde era possível distinguir formas. Formas de homens e mulheres. Formas que se moviam com sensualidade e paixão. O que estava a acontecer na ‘Ilha dos Amores’ naquele instante era visto por nós atentamente. E lá estavam, misturadas com as ninfas, algumas vampiras de olhos vermelhos, que só os nossos olhos conseguiam reconhecer. Um cenário idílico repleto de leitos de nenúfares, essências de rosas e velas acesas espalhadas por toda a ilha.

Suspiravam elas e eles e suspirávamos nós por não termos conseguido os nossos intentos.

“Perdemos a única hipótese de nos tornarmos mais fortes do que esses vampiros que nos sugam a vida e que sugam a bondade dos Humanos. Agora resta-nos voltar ao nosso tempo, a tempo!” Foram as palavras da feiticeira dos olhos cinzentos que se fechou depois dentro do seu próprio silêncio.


sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Tatuagem

(...)

Os portugueses tinham seguido a rota prevista por Vénus para a ‘Ilha dos Amores’ e a noite caía lentamente sobre nós, escondendo assim um pouco da desilusão e tristeza espelhadas nos nossos olhos. Desconhecíamos o paradeiro da feiticeira escritora e da sua assistente e temíamos que o pior tivesse acontecido. Voltámos à sala da toalha vermelha e reunimo-nos à volta da mesa, tentando evitar que o olhar caísse sobre as cadeiras vazias.

A feiticeira dos olhos cinzentos acendeu a lareira e retirou o manto que a envolvia. Os grãos da areia continuavam agarrados ao fino vestido manchado de vermelho que lhe cingia o corpo. Uma das alças deslizou pelo ombro, deixando a descoberto a tatuagem que todas possuíamos e que adquiria novas formas, conforme o nosso estado de espírito. Naquele momento era uma silhueta de sereia que lhe enfeitava a pele branca. Pegou de novo no seu manto cinzento e retirou de um dos bolsos um saco de pele que continha uma pequena quantidade de ervas prateadas que nunca tínhamos visto antes. Retirou de um dos armários um enorme cálice de bronze e colocou-o no centro da mesa. Saiu da sala, levando nas mãos um jarro. Voltou pouco depois e despejou a água salgada dentro do cálice. Colocou as ervas prateadas e verteu três gotas de sangue do pulso esquerdo com a ajuda da espada. Uma a uma todas nós repetimos os últimos gestos da feiticeira dos olhos cinzentos.

(...)

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Sangue Fresco

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

A Casa do Poço Envenenado

(...)

Três dias depois, lá estávamos de novo à volta da mesa, onde a toalha vermelha repousava vazia. A casa do Poço Envenenado ficava numa clareira da floresta discreta e para lá chegar tínhamos que nos deslocar de vassoura devido à densa vegetação que a envolvia e que lhe dava um ar perfeitamente assombrado, tal como nós apreciávamos. Nunca havia o risco de nos perdermos, nem mesmo a feiticeira escritora que aparentava sempre um ar de distraída, uma vez que todas as vassouras possuíam GPS, cujas coordenadas eram controladas pela feiticeira dos olhos cinzentos.

Desta vez não havia nada para comer. Estávamos ali para ouvir o que a irmã dos olhos cinzentos tinha para nos revelar, rodeadas de imensos castiçais carregados de teias intermináveis e velas acesas.

(cont.)

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Noite de magias

O jantar continuou sem mais referências às viagens no tempo, e no final todas nós, à excepção da feiticeira dos olhos cinzentos, partilhámos novos ingredientes e novas combinações de poções de amor eterno, vingança sangrenta, enriquecimento fácil, curas temporárias para as mais variadas maleitas, adivinhações de acontecimentos nos tempos mais próximos ou em vidas passadas, desfazer enguiços e males de inveja e outras potencialidades associadas que nos tornavam úteis aos Humanos, embora não resolvessem os nossos próprios problemas.

Nessa noite nenhuma de nós desapareceu misteriosamente e foi com um sorriso nos lábios que já quase ao amanhecer procurei as chaves dentro da minha carteira para abrir a porta de casa, isto depois de ter guardado cuidadosamente a vassoura dentro do tronco de uma das árvores que enfeitavam o nosso quintal.

(cont.)

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

A Fórmula do Tempo


Foi assim, perante aquela inusitada anunciação de uma recente descoberta, que todos os nossos olhos verdes fitaram com atenção a feiticeira dos olhos cinzentos.

“Descobri que é possível atravessar a dimensão do tempo e levarmos as nossas vassouras até ao passado mais longínquo!”

“Desde que não acabemos na fogueira, nos tempos da Inquisição a servir de churrasco!” Disse a feiticeira mais nova com ar desafiador.

“Isso não me parece pertinente agora. A questão é: como é que é possível atravessar a dimensão do tempo? Já ouvi falar em várias tentativas falhadas e as únicas conseguidas estão descritas nos livros de ficção científica, ou seja, fazem parte da imaginação dos Humanos, que como todas sabemos, é muito fértil nesse tipo de ambições!” Argumentou a feiticeira bibliotecária com aspirações a um lugar de historiadora na Universidade onde exercia funções.

“É possível e eu posso prová-lo a todas, nesta mesma sala, daqui a três dias, que como sabem, será noite de Lua Nova e por isso mesmo, uma noite perfeita para iniciarmos um novo ciclo.” Respondeu a feiticeira da mais recente descoberta.

“E não nos podes já adiantar que passos te levaram a essa conclusão?” Perguntou a feiticeira enfermeira.

“Só posso adiantar que descobri a fórmula num livro da Torre do Tombo.”

(cont.)

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Menu Gourmet


Iniciámos a refeição com umas entradas de espetadinhas de olhos de peixe e os pratos principais constaram de bacalhau com unhas trituradas e empadão de cadáver de morcego coberto com massa folhada. As sobremesas continuavam à frente dos nossos olhos, prontas para serem devoradas pelas nossas bocas: brigadeiros de terra de túmulo e toucinho do inferno. Quanto à bebida, naquele ano tivemos que nos contentar com o vinho, já que sangue de moças virgens dava muito trabalho para encontrar.

(cont.)


terça-feira, 14 de Julho de 2009

A Floresta Discreta



A toalha vermelha cobria a mesa de jantar. Lembro-me, como se fosse hoje, do momento em que a feiticeira dos olhos cinzentos se levantou do cadeirão para anunciar a sua mais recente descoberta. Nenhuma de nós tinha terminado a refeição e os copos de vinho continuavam a ser constantemente servidos na esperança vã de nos saciar a sede infinita.

“Tenho que vos contar o que descobri!”

Quando ela se levantou, reparei que a sua face, habitualmente lívida e quase sem cor definida, estava ruborizada de excitação.

Normalmente, só partilhávamos os mais recentes feitiços depois de todas as iguarias serem consumidas, pois não era todos os dias que nos deliciávamos com o distinto menu de produtos gourmet que a feiticeira estafeta tinha ido buscar ao mais recente take-away da floresta discreta.

(cont.)


quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

De Malas Aviadas



Até vontade em contrário, vou pregar a outra freguesia, onde tenho mais companhia.


Susn F

domingo, 28 de Dezembro de 2008

A cinza das horas

Venero

Uma plateia cheia
de lugares vazios
e o palco distante
cortante

Decalco
De.vagar
O tempo a apertar

Espero

de braços abertos
em dias fechados
a fecundidade
da eternidade

De.mora
Detenho e contenho
Os caminhos que desenho

Desespero

Porque o som ao longe
Ouve-se perto
Entreaberto

De.mais
De.menos
Por sermos terrenos

E enterro
Desterro (me)
E fico aqui

.Assim.

E a música?

Sempre dentro de mim.

segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

Convite




sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Incompletos


Que sabemos nós dessas nuvens cinzentas onde repousam palavras douradas?

Não
nos
sabemos.
Cremos em mãos de poeiras aladas rente ao chão.
E
voamos
sem querer.
Rastejamos no sangue das espadas
Sem
nos saber
das próximas passadas.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

O Sr. do Fogo


Uma tarde de muito sol. Uma menina de olhos muito verdes e cabelos pretos viu chegar um animal quase sem forças. Era um burro com ar faminto. A menina correu para dentro de casa. Há problemas que são muito fáceis de resolver e esse era um deles. Quando saiu disparada pela porta fora, levava nas mãos uma caixa do melhor sortido que encontrou para matar a fome ao animal.
Anos mais tarde, a mesma menina teve a brilhante ideia de levar dois deliciosos gelados com sabor a limão para saborear com a prima debaixo dos lençóis, às escondidas dos pais. E que bem que souberam esses gelados! Se fosse a menina a contar esta história, saberia com certeza o nome deles, coisa que a prima nunca se lembra.
A menina dos olhos muito verdes tem uma excelente memória, a prima dos olhos muito castanhos é uma desmemoriada (não confundir com desmiolada!).
E foi assim que não passou despercebida uma data importante à menina dos olhos verdes. Teria então 89 anos a pessoa generosa que nos manterá unidas, apesar da distância. A pessoa que se encarregava de não deixar que o fogo da lareira se apagasse. A pessoa que dizia:’um dia quando eu cá não estiver vocês vão se lembrar do que o vosso avô vos dizia…’. Se fosse a menina dos olhos verdes a contar esta história, saberia dar um exemplo dos inúmeros conselhos que ele gostava de dar, mas como sou eu a contar, não me lembro das palavras, só me lembro que na sua humildade foi sempre grandioso.
Hoje estou eu com fome, não de sortido (que isso é comida de burros), nem de gelados (porque está muito frio), mas da grandiosidade de um simples abraço.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

O Primeiro Passo


UM. Num espaço dedicado ao Renascimento Lusitano, esta rubrica destina-se a dar passos no sentido de encontrar os caminhos das criaturas que deambulam na noite à procura dos seus criadores.
Neste primeiro passo, devo confessar a minha extrema dificuldade em exprimir com clareza a mensagem que pretendo transmitir, por isso, se ainda não pararam de ler, e se o primeiro parágrafo vos deixou completamente às escuras, isso é perfeitamente normal e é um defeito que pretendo colmatar, o que só conseguirei fazer, escrevendo.
Victor Frankenstein também não saberia muito bem no que se estava a meter, quando resolveu construir no seu laboratório um Ser com partes de cadáveres. Quando terminou, ficou assustado com o resultado da sua própria criação e sem saber o que fazer com ela. A criatura, por sua vez, sentindo-se desamparada, seguiu o seu próprio caminho e acabou por se vingar do seu criador da forma mais vil e sanguinária.
‘Frankenstein ou o Moderno Prometeu’ foi escrito por Mary Shelley quando esta tinha apenas 19 anos e o livro foi publicado pela primeira vez em 1818, há quase dois séculos.
É admirável e inspiradora esta criação de Mary Shelley, de tal forma que a sua criatura (ou a criatura de Victor Frankenstein, a personagem) ficou famosa em todo o mundo e foi ‘adaptada’ pela cultura popular, provavelmente de forma muito diferente da mensagem que a autora tinha em mente na altura, mas as criações quando são partilhadas deixam de nos pertencer e passam a inspirar outros autores e a tomar outros contornos.
Já não é a primeira vez que leio poesia ou vejo uma pintura e me dizem ‘… mas não era nada disso que eu queria transmitir’. E eu digo ‘E depois? Não será isso um bom sinal?’
Hoje pergunto-me, se a Mary Shelley soubesse o que fizeram da sua criação, já teria dado muitas voltas no seu túmulo por subverterem a sua mensagem, ou pelo contrário teria sorrido ao concluir que criou uma verdadeira obra de arte que permaneceu no tempo?
Continua no próximo passo.

Texto Publicado n' O Bar do Ossian